quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Shiuuuu...







Deixa que eu te ame em silêncio
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele  falem seus líquidos desejos....


Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discurso
de impronunciáveis emoções.



 Afonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A eternidade e o desejo.

 
 
 Gosto do arrepio da tua língua na minha nuca, gosto que me digas "quero mais" quando creio já te ter dado tudo, gosto das palavras obscenas que  inventamos juntos, feitas de restos de barcos e  impérios, lodos  e  dolos do nosso passado comum  estoirado pelas  costuras. Gosto  de  imaginar-te  mais  perto  de olhos fechados, captar-te  todos  os  traços  como  se da última fotografia de todos os   rolos  existentes  no  planeta se tratasse e, ao teu ouvido, interromper o silêncio ensurdecedor  da  noite  com  palavras  ainda  por inventar, ouvir-te a respiração descompassada que se segue. Sentir que nada mais importa.

Inês Pedrosa
in A eternidade e o desejo

terça-feira, 1 de outubro de 2013

29-09-2013

Num dia de grandes emoções...

Ficar

Fica comigo. Daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. Fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. Mesmo que não fales. Mesmo que leias a revista do jornal. Mesmo que não me toques. Mesmo como se eu não existisse. Há alturas, imagina, em que penso que não existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, a voz da minha mãe, do fundo da infância.

António Lobo Antunes